Paço Municipal de Santo André: como nasceu o Centro Cívico da cidade

A gênese do Centro Cívico

O Centro Cívico de Santo André não é apenas a sede administrativa da Câmara Municipal; é um símbolo da evolução urbana e cultural da cidade. Esta área, reconhecida como patrimônio histórico, abriga não apenas o Legislativo e o Executivo, mas também o Fórum, um Teatro Municipal e uma Biblioteca Pública. Em um episódio recente do podcast da TV Câmara, o professor Henrique Stachov, que coordena o curso de Arquitetura e Urbanismo na Fundação Santo André, discorreu sobre a origem desse importante espaço e sua contínua relevância para a comunidade.


O concurso que transformou a paisagem urbana

O surgimento do Centro Cívico é um resultado de um concurso promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), realizado em um momento de grande otimismo no Brasil, logo após as vitórias da Copa do Mundo e a inauguração de Brasília. O arquiteto Rino Levi foi o vencedor desse concurso, apresentando uma proposta que ultrapassava as expectativas da época, ao contrário do modelo monumental da Praça dos Três Poderes em Brasília, projetada por Oscar Niemeyer. Levi visava um espaço que integrasse governo, cultura e convivência, proporcionando um ambiente acessível e acolhedor.

Influência de Rino Levi na arquitetura brasileira

Rino Levi era um arquiteto formado em Milão na década de 1920 e trouxe para o Brasil a rigorosidade da tradição italiana, combinada com a ousadia característica da Escola Paulista de Arquitetura. Sua experiência com projetos de cinemas e teatros, como o Teatro Cultura Artística em São Paulo, proporcionou-lhe um conhecimento profundo sobre acústica, que foi incorporado tanto no Plenário da Câmara quanto no espaço do Teatro Municipal do Centro Cívico. Levi era conhecido por sua atenção aos detalhes, desde as especificações dos materiais até o uso de mármores e granitos italianos.

Centro Cívico de Santo André

O papel do paisagismo de Burle Marx

O projeto paisagístico do Centro Cívico foi assinado por Roberto Burle Marx, um artista que colaborou estreitamente com Rino Levi. Burle Marx criou um paisagismo que mescla o padrão reticulado da tradição francesa com formas mais orgânicas, valorizando a identidade brasileira. Elementos como o mosaico português, o espelho d’água e as curvas que interligam os diferentes edifícios tornam o percurso pelos espaços culturais e administrativos um verdadeiro convite à exploração.

Significado do Monumento ao Trabalhador

Um dos marcos do Centro Cívico é o Monumento ao Trabalhador, uma escultura em forma de fita, obra de Tomie Ohtake, que foi instalada em 2013 ao lado da Câmara Municipal. Esta obra homenageia a classe trabalhadora de Santo André e reforça a importância histórica e cultural da cidade enquanto centro industrial no ABC.

Transparência: o edifício da Câmara Municipal

O projeto do edifício da Câmara Municipal foi concebido de tal forma que ele se ergue sobre pilotis, permitindo que as pessoas tenham passagem livre por baixo da estrutura. Essa concepção não apenas enfatiza a acessibilidade, mas também a transparência, já que a entrada do edifício convida os cidadãos a se aproximarem mais da política local. O interior do prédio é interligado através de cinco escadas, que conectam a área administrativa, os gabinetes dos vereadores e o Plenário, que foi planejado para otimizar a acústica e o diálogo entre os parlamentares.

A evolução da área ao redor do Centro Cívico

Antes de se tornar o Centro Cívico, a área era uma praça sem uso prático. Nas décadas de 1920 e 1930, o espaço era ocupado por chácaras pertencentes a famílias que buscavam os ares da serra. Com a transformação de Santo André em um centro urbano e industrial ao longo do século XX, a localização tornou-se um ponto estratégico, conectando Santo André a seus municípios vizinhos e solidificando seu papel como um importante polo administrativo.

Importância cultural e social do Centro Cívico

O Centro Cívico foi projetado não apenas como um espaço administrativo, mas como um local de encontros e celebrações. O espaço aberto entre os edifícios ainda é utilizado para manifestações, eventos culturais e celebrações, permitindo que a comunidade se reúna e interaja. Henrique Stachov ressalta que a preservação do Centro Cívico deve ser vista como algo dinâmico, onde o espaço é ativamente utilizado pela população.

Visitas e acesso ao patrimônio histórico

Os cidadãos de Santo André têm a oportunidade de conhecer de perto o Centro Cívico, que continua a ser um local de interesse histórico e cultural. As sessões da Câmara Municipal são realizadas às terças-feiras e estão sempre abertas ao público, incentivando a participação da população nas decisões e atividades legislativas.

A preservação e uso do Centro Cívico

Conforme destacado por Henrique Stachov, manter o Centro Cívico não significa isolá-lo, mas sim integrá-lo ainda mais à vida da cidade. A meta é usar o espaço como um ponto de encontro, de incentivos culturais e de reivindicações, como idealizado originalmente. O Centro Cívico, portanto, não é apenas um patrimônio a ser guardado, mas um espaço vivo, que respira a cultura e a história de Santo André.